Lidando com o isolamento

Lidando com o isolamento

Conforme já discutido anteriormente, o isolamento social traz diversas implicações para a nossa saúde mental. A mudança da nossa rotina, a exposição frequente a notícias sobre a pandemia, a dificuldade de gerenciar tempo, sono e alimentação. A maneira como lidaremos com esses fatores trazidos pela realidade que nos foi imposta definirá o quão difícil esse período será. A boa notícia é que com pequenos ajustes podemos tornar nossa adaptação muito mais fácil.

É normal nos sentirmos perdidos em relação a nossa nova rotina. Reconsiderar hábitos exige muita flexibilidade cognitiva. Apesar de nunca ter vivenciado a crise atual, tente se lembrar de outros momentos difíceis que experienciou em sua vida: perdeu o emprego? terminou um relacionamento? teve que mudar de cidade? Quais as estratégias que você utilizou nessas situações? Se você chegou até aqui, por mais difícil que tenha sido esse momento recordado, você conseguiu. Por isso, buscar em experiências prévias formas de lidar com seus períodos de maior estresse pode ser útil nesse momento. Exerça o autoconhecimento.

Elabore uma rotina e escreva-a em um papel. Faça alguns ajustes em relação a rotina que tinha: não precisa usar salto alto em casa, mas também não se deve trabalhar de pijama. Ao final do dia, avalie o que deu certo e o que não deu. Se recompense pelos objetivos que atingiu e seja gentil com os que não deram certo. Não se cobre tanto por produtividade e inclua pequenos momentos de lazer durante o dia. Quanto mais você se sentir capaz de realizar suas tarefas, melhor vai se sentir e mais ocupado vai se ficar. Manter uma rotina também inclui atentar para o sono e a alimentação. Coma com sabedoria, cuide o horário das suas refeições e não desconte sua ansiedade na alimentação. O nosso sono é um importante mecanismo de regulação do humor: durma e acorde nos horários que costumava fazê-lo.

Cuidado com a televisão e a internet: a exposição excessiva às notícias sobre a pandemia pode gerar ainda mais ansiedade. Além do mais, essa emoção pode desencadear preocupações “improdutivas”, visto que estão relacionadas a algo que não podemos controlar. Geralmente, vêm acompanhadas de muitos “e se?”. E se a quarentena durar 3 meses? E se algum familiar meu adoecer? Não fique ruminando esse tipo de pensamento.

Foque sua atenção somente em preocupações “produtivas”: aquelas que podem nos impulsionar para resolver algo. Não tenho como controlar o tempo que irá durar a quarentena, mas posso ir planejando semana a semana como irei enfrentá-la. Assim sendo, escolha um momento do dia e uma fonte confiável de informações para se atualizar sobre a pandemia e não atente-se ao que você não pode controlar.

Provavelmente, antes da quarentena você reclamava da falta de tempo. Aproveite a flexibilidade do momento para colocar suas pendências em dia: ler aquele livro que estava guardado, arrumar seu guarda-roupa, tirar um projeto do papel, reorganizar a sua casa, etc. Existe uma gama de estratégias que podem nos ajudar em momentos de crise e ansiedade. Além de manter uma rotina, questionar e avaliar suas preocupações e manter o sono e a alimentação ajustados, você também pode: meditar (existem vários aplicativos que ensinam essa prática), realizar respiração diafragmática (procure no Youtube um vídeo ensinando) e fazer exercícios físicos e alongamentos (de preferência converse com algum educador físico). Essas são apenas algumas das dicas que possuem evidências de efetividade. Todavia, como cada ser humano é único, o que funciona para uma pessoa, pode não funcionar para outra. Por isso, antes de pensar que não vai funcionar para você, teste-as. Quanto mais desenvolvemos a nossa flexibilidade cognitiva, mais conseguimos nos tornar resilientes perante a crise.

Por fim, e não menos importante, é preciso destacar que isolamento social não é igual a isolamento emocional. Precisamos nos manter conectados afetivamente com as pessoas que são importantes para nós. Tire momentos do seu dia para falar com a família e com os amigos. Converse com eles sobre seus sentimentos e demonstre interesse na vida deles. Já que não podemos trocar afetos presencialmente, compensemos virtualmente!

Autora: Dayane Santos Martins
Psicóloga Clínica (CRP 07/29414)
Instituto de Neuropsicologia do RS
Laboratório de Psiquiatria Molecular / HCPA
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento UFRGS