Preocupações e isolamento social em tempos de pandemia

Preocupações e isolamento social em tempos de pandemia

No atual cenário de uma pandemia, onde estamos diante de incertezas e preocupações no que se refere à saúde (pessoal e de familiares), a atividades acadêmicas (aulas, atividades e avaliações ministradas à distância) e laborais (altas taxas de desemprego, redução de jornada de trabalho e salários) e ao futuro do mundo, torna-se importante distinguir preocupações “produtivas” (mais eficazes) de preocupações “improdutivas” (menos eficazes).

As preocupações produtivas são aquelas que nos ajudam, diante de um problema (pandemia COVID-19), a buscar uma solução imediata e eficaz para o mesmo (uso de máscaras, álcool gel, isolamento/distanciamento social) que possibilite uma transição do “modo preocupação” para o “modo ação”. Dada a gravidade do problema atual, o importante é que essa solução gere em algum grau redução de emoções negativas (medo, ansiedade, desesperança, depressão, por exemplo) e uma rotina com funcionalidade e qualidade mínimas dentro do possível.

As preocupações improdutivas geram, diante de um problema, uma cadeia de preocupações atuais e futuras (meta-preocupações), não havendo o engajamento em uma possível solução para o problema (será que funcionaria? E se eu fizesse x, não aconteceria y?).

A soma de cadeia de preocupações ativada (‘serei contaminada, precisarei ser entubada e não sei se existirá um leito em UTI”; “meus avós morrerão pois eu estive com eles dias atrás e me sentirei culpado para sempre”), ausência de uma ação para solucioná-lo (reduzir risco de contaminação) e dúvida sobre a sua eficácia (busca por solução ideal sem tomada de ações concretas), gera e perpetua emoções negativas.

Em suma, estamos em um momento nunca antes vivido, nossas mentes estão minadas de incertezas, dúvidas e preocupações constantes sem data para cessarem, e um novo formato de rotina é necessário para quem sabe não sermos contaminados por um inimigo perigoso, porem invisível. Ou, em caso de contaminação, desconhecemos a gravidade de nosso quadro clínico e quantas pessoas teremos contaminado enquanto “assintomáticos”.

Nesse sentido, segue abaixo uma proposta de dez passos para lidar com o isolamento (Staying home during the pandemic), artigo publicado recentemente pelo terapeuta cognitivo norte-americano Robert Leahy, autoridade em ansiedade e seu manejo.

1. Normalizar as emoções – é normal sentir emoções como tristeza medo ansiedade raiva e desesperança em situações traumáticas geradoras de medo e preocupação (consigo e com entes queridos). Dada a gravidade do momento e a mudança de rotina, sugere-se que essas emoções sejam toleradas e aceitas dentro do possível.

2. Manter contato social com amigos e família – através de telefonemas, vídeo chamadas, e-mails, outras plataformas para melhor lidar com a solidão e o isolamento.

3. Programar atividades e ativar comportamentos – Ter uma rotina que inclua do mais simples ao mais complexo (afazeres domésticos, leituras, exercícios, troca de roupa em casa, cuidados com higiene pessoal). Sugere-se uma rotina o mais próxima da rotina anterior, com horários destinados a cada atividade proposta. Incluir rotina de higiene do sono. Controlar o tempo destinado a obtenção de informações sobre a pandemia.

4. Encarar a fase atual como tempo livre – ao contrário da rotina anterior a pandemia, nesse momento, usar o tempo para si próprio pode ser um passo para lidar com o isolamento.
Observação: home office e home schooling serão rotina, e o tempo livre sim poderá ser usado para si próprio.

5. Fazer o que tem adiando e procrastinado – tarefas, leituras, organizar a casa. Observação: home office e home schooling – organizar e gerenciar tempo para evitar acumulo de tarefas.

6. Exercícios diários – realizar atividade física (proposta por aplicativos, profissionais, amigos) em casa no mínimo uma vez ao dia.

7. Comer e beber adequadamente – aumento de peso e abuso de álcool não são recomendados no presente momento, porque o excesso vai se depositar como gordura.

8. Fazer lista de livros, vídeos, series e filmes que anteriormente não conseguia dar andamento.

9. Dar apoio as pessoas que estejam precisando– telefonemas, mensagens, compras para vizinhos especialmente idosos.

10. Desafiar e superar a desesperança.

Autora: Daniela Zippin Knijnik – Psiquiatra especialista em transtornos de ansiedade UFRGS – Terapeuta cognitivo comportamental